du Contra: Diário de bordo, sobre festas o inglês

segunda-feira, 14 de março de 2011

Diário de bordo, sobre festas o inglês

“Are you going to New Orleans, dude? Oh, man! Be ready to party a lot! You’re gonna party everyday! Be safe!”

Essa frase fez parte do meu primeiro diálogo em inglês na minha vida toda [1], mas foi uma das poucas coisas que eu realmente entendi do que aquele negão de 2 metros de altura com a camisa do Saints - mais tarde fui aprender que aquilo se chama jersey - falou pra mim.

Sério, eu ainda não tinha parado pra pensar o quanto o sotaque pode complicar no entendimento/aprendizado de uma língua, até me deparar na prática com a diferença da pronúncia das palavras em inglês entre os negões, os manos, os branquelos, os red necks, o povo do norte, o povo do sul, o povo da Inglaterra, da Índia, os latinos... Eu não deveria ter me espantado, eu vivo no Brasil! Também é brutal a diferença entre sotaque e vocabulário (gírias, por exemplo) do povo que fala português. Muda absurdamente entre a galera do PR, RS, BA, SP, Portugal, Angola... Esses dias eu conheci um brasileiro do Pará que vive aqui há 5 anos, e eu entendo melhor quando ele fala em inglês do que em português!

Durante o vôo de Miami para NOLA fiquei pensando em tudo isso e imaginando o quanto estaria ferrado. Eu fui ingênuo ao achar que o meu inglês de filme, video-game e aulas de ensino médio suprisse todas as minhas necessidades.

Mas sabe o pior melhor? Supriu. Quanto a língua, esses três meses nos Estados Unidos me fizeram perceber 3 coisas, que discorro brevemente a seguir:

1. Meu inglês é bem fraco.

Assim, eu leio bastante coisa em inglês, e não tenho dificuldades, então arrisco dizer que sou “fluente em leitura”. Raramente tenho problema com vocabulário e, se acontece, normalmente o contexto me poupa de procurar significados no dicionário na internet. Também até que sou um bom ouvinte, principalmente se a pessoa fala claramente e sem sotaque, mas quem fala assim? Só o Microsoft Text-to-speech, o robô do Google Translate ou sua professora de inglês da quinta série. Porém, percebi que essa parte é a que melhora mais rapidamente aqui. Na primeira semana eu respondi “yes” quando me perguntaram se queria o combo “small, medium or large” no Burger King, mas depois de pouco tempo já havia me acostumado e tenho entendido até as perguntas mais difíceis dos atendentes de Subway e Mc Donalds (elas realmente podem ser difíceis, acredite).

O que complica, mesmo, é na hora de falar. Responder “yes”, “large”, “Brazil”, “Computer engineering”, “I love you too” e “No, I won’t forget you” é fácil. Quero ver você ter um papo de verdade, expor suas ideias sem limitações e espontaneamente, explicar que o Brasil não é feito apenas de samba, futebol e praia, falar que você até que é bonitinha mas não faz meu tipo. Nisso eu era ruim, passaram-se três meses, e continuo sendo ruim. Claro que com uma ou duas Bud Lights eu até melhoro um pouco, e com mais de três eu viro fluente, ainda mais se o interlocutor também tiver tomado umas. O problema mesmo é quando sóbrio.

2. Mas isso não importa.

Ninguém vai rir de você, você não é obrigado a falar certinho, muita gente que nasceu aqui também não fala certinho, e você pelo menos tem uma desculpa. Inclusive, devido ao meu inglês inegavelmente de estrangeiro, logo surgia a pergunta que eu mais gostava de ouvir: “Where are you from?”. Respondia “Brazil” com um sorriso no rosto e o mais próximo que eu conseguia pronunciar o nome do nosso país com esse sotaque estranho, já que quando a gente fala “Brasil” com a pronúncia de brasileiro poucos entendem do que estou falando ("What's Brasil? Oh! Brazil!"). A replica não raramente era: “Really? So cool!”. E meu jeito inseguro sempre pedia desculpa pelo inglês ruim, e SEMPRE, mesmo que tenha sido apenas por educação, falaram que não era ruim. Creio que eles estejam acostumados com a infinidade de imigrantes de todas as partes que vem pra cá sem falar NADA de inglês [2].

Pois é. A partir de um nível básico de inglês você se comunica sem muitas dificuldades. Morrer de fome, pelo menos, você não vai, just ask for the number 3, large, thank you.

3. Meu sotaque é sexy.

Sempre que me ouço falando em inglês eu tenho vontade de me socar na boca e me obrigar a calar forever and ever. Mas que meu sotaque, e acredito que dos demais brasileiros, é sexy (ou hot, ou cute) foi o que me disseram não uma, nem duas, nem cinco, mas no mínimo umas 11 americanas que conversei [3]. E não, nem todas estavam bêbadas. E eu não sou tão gato e sexy por inteiro assim pra todas estarem me xavecando, uma delas era um senhora que simplesmente falou "I like your accent" após comprar um cigarro no comigo no posto Shell (Marlboro Light, provavelmente).

Enfim, divaguei muito já sobre essa questão de idioma, voltemos para a primeira frase.

“Are you going to New Orleans, dude? Oh, man! Be ready to party a lot! You’re gonna party everyday! Be safe!” foi mais ou menos o que o negão com a jersey e boné do New Orleans Saints me falou, na fila pro embarque do avião de Miami pra NOLA enquanto eu ainda estava com o gosto ruim da Coca Cola ruim que havia acabado de tomar e me perguntando se a Coca Cola era realmente pior no seu país de origem [4]. Mas enfim, agora, vamos falar de festa.

Pensando bem, o texto já ficou grande e você merece um descanso. Continua no próximo post!

[1] - As conversas via Chat Roulette, a entrevista de emprego via Skype, a conversa com o embaixador para tirar o visto, ou até com o fiscal da imigração ao entrar no país não contam. Essa foi a primeira conversa oficial, pessoalmente, que tive com um americano dentro dos Estados Unidos.

[2] - A quantidade de hispânicos aqui é íncrivel. Se você não fala NADA de inglês, mas arrisca no espanhol, pode vir que vai se virar bem. As grandes lojas colocam placas em inglês e espanhol, têm atendentes que falam em espanhol, fora as lojas, restaurantes, advogados e etc SÓ de hispânico.

Tinha gente que chegava falando em espanhol comigo! Aliás, isso era uma coisa que irritava... eu PERDI as contas de quantas vezes, ao falar que era do Brasil, a pessoa perguntava se a gente falava espanhol ou, pior, simplesmente começava a falar em espanhol. Falando sobre isso com qualquer brasileiro que encontrei aqui, e após comentar sobre isso no Facebook, percebi que o mundo inteiro não sabe que o Brasil fala português! Foi aí que mandamos (eu e uns amigos aqui) fazer essa camiseta:



[3] - Um fato engraçado foi numa festa, onde eu conversava com um casal sobre eu ser brasileiro e estar ali e etc (não importa o motivo da conversa, ela sempre vai passar por isso) e a menina fala: “Wow! Your accent is so hot!”. Eu, com vergonha, fingi para o namorado dela que não havia entendido, e perguntei o que ela estava falando. O corno namorado então me responde: “Nevermind, bro. She is talking shit!”.

Revisando o texto agora, lembrei de que uma mexicana que trabalhava no mesmo lugar que eu e uma vez me disse: “Your english is very good, are you really from Brazil? You have an american accent”. Mas se bem que ela não conta, tadinha. Quando eu disse que o meu motorista era da Polônia, ela coçou a cabeça e perguntou se ficava na África, além de misturar inglês com espanhol em todas suas falas, inclusive ao atender os clientes.

[4] Eca, tinha gosto de cloro. Mas deveria ser culpa da água daquela máquina. De qualquer maneira, Dr. Pepper > Coca Cola, e isso vai ser o que eu mais sentirei falta daqui, sem dúvidas!

postado por Zeca Daidone - 12:42 -

2 Comentários:

OpenID vainalousachefe:

Passei menos tempo que você no exterior- só uma semana- e foi na Turquia, não num país anglófono. Foi um pouco diferente a experiência, pelo fato de não só eu ali ter um sotaque não-americano ou não-britânico, mas TODOS terem sotaques diferentes.
As conclusões que eu cheguei foram as mesmas que você. Ninguém precisa saber falar perfeitamente, todos se esforçam por entender, todos cometem seus erros, todos tem seus sotaques. E também ouvi que o sotaque do brasileiro é o mais engraçado, legal, divertido, etc.
E o efeito do álcool é sensacional eheheh.

março 14, 2011 1:26 PM

 
Anonymous Anônimo:

HUAUHAHUAAHUHUAHUAH
Esse seu post me deixou ainda com mais vontade de ir pra lá! T.T Será que vai ser assim também? Ou todas as pessoas legais se concentram em NOLA?
Se pah vou fazer uma camiseta igual a sua e levar comigo na mala! ;)

ps: é a Sam

abril 10, 2011 11:45 PM

 

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Estudante de Engenharia de Computação na UFSCar, 22 anos de idade, inquieto quando era para ficar quieto e quieto quando era para inquietar-se, tenta estar animado mesmo diante dos piores cenários para nosso incerto futuro. Saiba mais aqui

Gosta muito de ler, de computadores, internet, desenhos animados, séries (mas não as numéricas), filmes de ação e de aventura, ama o seu quarto e é viciado em Pink Floyd, mas tem ouvido muita coisa ultimamente.

Não gosta de várias coisas, como por exemplo ter que repetir o que disse após um 'oi?' ou simplesmente perder um gol durante a educação física (isso não existe mais, enfim). Em tempos de universidade, não gosta de ter que dedicar tanto a teoria matemática e perceber que toda sua criatividade e tempo livre cada vez são menores. Também não gosta de ter que lembrar o que não gosta.

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